Um "cadinho" de mim

São Luís, Maranhão, Brazil
Rita Luna Moraes Assistente Social e Bacharel em Direito. Servidora pública federal aposentada.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

 

O serviço público merece respeito e seus servidores de base, também

Na semana em que o Congresso Nacional aumentou absurdamente os salários dos servidores do Legislativo e em que o Ministro do Supremo Tribunal Federal, o conterrâneo maranhense Flavio Dino sentenciou que os órgãos públicos eliminem os “penduricalhos” vergonhosos que burlam o teto salarial para os servidores públicos, lembrei-me de que não celebrei meus 40 anos: em 1986, tomei posse como servidora pública federal, em 02 de janeiro, concursada e aprovada em 1º lugar, em empate com outra colega de turma da UFMA, que, por ser mais velha, classificou e assumiu primeiro, no último concurso unificado realizado à época.

Não importa que já tenha passado a data. O que me importam são minhas memórias e sobre elas escrevo agora - antes que me esqueça.

Filha de servidora pública, da área educacional, desde a adolescência mamãe me levava, nas férias escolares, para a Escola Técnica, ali no Monte Castelo. Costumo dizer que minha habilidade com grampeador e perfurador vem de longa data. Mamãe me fazia organizar dossiês de funcionários e procurar atos administrativos no Diário Oficial da União (um livrão em papel jornal encartado). Eu lembro de que gostava dessas atividades. Até hoje, sou detalhista pra organização e tenho olho clínico para encontrar qualquer registro.

Meus primeiros anos como profissional de Serviço Social, na Unidade Materno Infantil, foram muito intensos. Inicialmente, no ambulatório de Obstetrícia, fazia atendimentos individuais e palestras para as gestantes em Pré-Natal, orientando-as sobre seus direitos em Saúde e civis. No primeiro ano ainda, estive como Supervisora de Estágio e, em seguida, como Supervisora Profissional.

Logo me juntei com outros trabalhadores e organizamos a atividade sindical – integrei e nomeei a Comissão Provisória (CAEMP) do que hoje é o nosso SINTSPREV e fizemos greves históricas e pioneiras nos 2 maiores Hospitais Federais da capital, além dos Postos (PAMs) e nas Unidades do INSS. Recordo que, nos piquetes, organizávamos a triagem com o pessoal da Enfermagem. Articulados a nível nacional na FENASPS, alcançamos muitas conquistas salariais e de condições de trabalho. Ano após ano, temos que sair reivindicando quase as mesmas pautas.

Mas, voltando para os dias de hoje: nós, servidores de base, ativos e aposentados (meu caso) do Poder Executivo sempre, sempre, recebemos muito menos que os colegas do Legislativo e bem menos ainda do que os do Judiciário. E seguramos o SUS na unha! Para ficar no exemplo da minha área de origem como servidora.

Passando pelas 3 esferas de Governo (Federal, Estadual e Municipal) na saúde, no planejamento e orçamento, na gestão, na assistência social e nos Direitos Humanos, mantenho o orgulho de vivenciar e praticar um trabalho que se dedica a contribuir para efetivar direitos. Mesmo sem o reconhecimento adequado e justo devido a nós servidores públicos, que merecemos dignidade profissional, o que não se concretizará com tantos penduricalhos desigualando as carreiras e projetando para a sociedade que o serviço público é dispendioso e ineficiente. Logo vem as chamadas na TV Globo para as propostas de reforma administrativa e da previdência. Mais uma vez, pretendem retirar direitos dos servidores de base, sem nem triscar nos do andar de cima, na equação salarial e de condições de trabalho.

Haja resistência e luta! Ando cansada. Não de trabalhar! Sempre penso que por trás de qualquer papel ou tela tem uma pessoa que receberá o resultado do meu trabalho e isto me gratifica. Mas, sem romantismo e voluntarismo, há que se compreender como um trabalho que imprime força e, portanto, precisa de compensação digna.

Que cessem os penduricalhos, as desigualdades, as aposentadorias compulsórias com salário como penalidade no Judiciário e as canalhices dos deputados e senadores, que olham para seus umbigos, em vez de priorizar a sociedade. Salvo as honrosas exceções, que existem e que devem nos animar. Assim como a decisão do Ministro Flavio, que aguardamos seja confirmada por seus pares.

O serviço público merece respeito e seus servidores de base, também!

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